Rewind

sábado, 1 de agosto de 2015

Avó,

como se passar pelos teus olhos fosse sempre como entrar em casa
as pernas tão habituadas aos degraus que demoram o nosso abraço
(mas ansiosas)
como se passar pelos teus olhos fosse sempre abrir a janela da infância e poder vir gritar ao terraço,

Vovó!

só para saber que estás aí e vieste deixar-me flores frescas junto ao peito.


como se passar pelos teus olhos fosse sempre não ter que mudar de roupa
a pele habituada ao conforto destas palavras amenas e amplas como uma brisa de verão
em que escolho agasalhar a nudez brincalhona da nossa intimidade.

como se passar pelos teus olhos fosse chumbar sempre a matemática
as pernas tão habituadas a aldrabar a espera do nosso encontro
e subir os degraus dois a dois fosse amar-te mais e com mais força.

porque passar pelos teus olhos foi sempre não precisar da chave da porta
as mãos habituadas a este amor-de-porta-no-trinco
o coração habituado a ter na tua voz o melhor miradouro de mim mesmo.

sabes, Avó, amo-te e passei para te dizer isso mesmo.

não bati a porta.

[volto logo para te ouvir a resposta e fazer batota ao subir os degraus]

RM
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