Rewind

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O sonho mais doce de Doris Lessing

Acabo de ler a fabulosa obra "O Sonho mais Doce" de Doris Lessing galardoada em 2007 com o Nobel da Literatura.
Fabuloso será, no entanto, dizer pouco. É seguramente das obras mais absoventes, emociantes e profundas que já li.
Através de uma saga familiar ao longo de três gerações, Lessing retrata esse período histórico que representou uma enorme transformação, choque e mudança que foram esses idos Anos 60. Embora a narrativa se inicie em Inglaterra cedo percebemos que o retrato desta época teria de ser o retrato do Mundo. A história atravessa continentes pelos olhos e as vidas intensas das personagens que nos são dadas a conhecer. Período aceso e inflamado, de uma revolução cultural, sexual e política estes anos desenrolam-se pela visão atenta de Lessing que constrói um enredo verdadeiramente envolvente que é também uma belíssima lição de História. A turbulência e o acender do rastilho comunista e a sua disseminação por grande parte do Mundo e, mais tarde, o reconhecimento dos seus atrozes excessos e erros profundos.

Cedo percebemos que, apesar do dançar do tempo, os Homens que repudiam o passado acabam por cair nas mesmas falhas profundas que o marcaram; que o extremismo não é o lugar onde mora o bom senso.

Livro que retrata intensamente as tensões sociais, o choque geracional e que, portanto, se torna num testemunho de uma humanidade impressionante. Lessing parece conhecer como poucos os meandros daqueles que emprestam ao sonho a acção e, como quase sempre acontece, padecem dessa febril cegueira e furor da paixão. Época fascinante esta - a da Guerra do Vietname; a da pretensa libertação de África; a da Guerra Fria, da ameaça nuclear, do início da discussão sobre a depressão e a anorexia; do início da descoberta da SIDA; do acentuar das clivagens sociais e do naufrágio dos novos países ao flagelo da corrupção, da fome e da mais absoluta das misérias. É este o tempo do feminismo incendiário; das reformas no ensino; da redefinição do papel social e sexual das mulheres, de instituições como o casamento e a Igreja e do início das movimentações da cena internacional e diplomática como hoje as conhecemos. "Tudo para o melhor no melhor dos mundos possíveis."

Talvez tenha sido esta a grande época em que o sonho fazia fervilhar os ânimos e os espíritos. O sonho como o maior dos motivos e, para alguns, o móbil perfeito para crimes atrozes.

É impressionante como uma casa em Hampstead se torna o palco e o ponto de partida para um retrato perfeito dos reveses e dos triunfos de uma época; de como o concretizar dos sonhos nos torna, por vezes, em pessoas tão diferentes daquelas que nos foi possível imaginar.

Recheado de personagens que pertencem a um vasto amplexo de realidades e ideais, este romance é um completo espelho da natureza humana. Escrito de forma apaixonante este é um livro magistral.

Nas palavras de Schiller, citadas no livro e parte do seu poema "Lamento da Jovem" diz-se: " Ich habe gelebt und geliebet" ("Amei e Vivi") e talvez, no fundo, cumprir um sonho seja um amor difícil, doloroso e um caminho em que se perde e se sofre mas que, no fundo, talvez seja a única forma de viver verdadeiramente.

"E partem pessoas que foram filhos afectuosos" para um mundo onde tudo se torna imprevisível e que apenas reconhecemos sob o peso do tempo quando lhes guardamos um verdadeiro, profundo e dedicado amor.

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