Rewind

terça-feira, 11 de outubro de 2011

tia Né.

Há em todas as famílias pessoas que corporizam traços que identificam as raças, que denunciam o eco que nos habita o sangue e viaja no correr da vida.
A minha tia avó era uma dessas figuras que nos acompanharam o imaginário de criança; que nos recebiam com os seus olhos azuis enormes e muito vivos, que continham o brilho dessa imensa inteligência e presença de espírito.
Nasceu numa casa onde o poder era uma presença antiga, que morava nos espaços entre as conversas por onde espreitava a memória, que os fez discípulos dessa missão de serem maiores.
Havia no seu génio essa determinação de se impor, de vincar no mundo o seu passo e o nosso nome tal como vira fazer as gerações que vieram antes dela.
Sempre fomos muito cúmplices - sei que o seu carinho por mim e pelo A. foi uma constante que lhe desenhava no rosto um sorriso sincero quando nos via chegar.
Lembro as tardes de férias - a família toda reunida e a sua gargalhada aberta com as malandrices que fazia à minha avó para a fazer esse abrigo na minha vida.
Tinha uma ironia fina que lhe punha no olhar essa intensidade do desafio; que lhe cosia no discurso uma clareza admirável.
O seu coração tinha favoritos como têm os corações que amam sinceramente - falava imenso com o meu pai sobre mim e o A. Deliciava-se quando nos via envolvidos nessa teia da memória que nos destinou a todos a mesma morada.
Tinha uma elegância soberba - numerosas sedas e uma espantosa colecção de jóias que a tornavam um símbolo numa sala. Representava o testemunho de que, pelo sangue, somos herdeiros dessa massa que nos criou do mesmo molde; que nos fez filhos do mesmo desejo de forjar um caminho por entre as dúvidas, as dores, a vida.
A sua maior herança foi a lembrança que guardo desse génio aceso, dessa atenção aos seus sucessores nos dias do amanhã.
Há dias em que lamento que as salas lá de casa não a tenham connosco. Era delicioso vê-la com a minha avó - as duas como dois bastiões dessa velha guarda de pessoas de carácter de ferro e de uma vontade maior do que as fraquezas do corpo.
Agradeço todos os dias a família que tive - a grandeza é uma coisa que identifico sempre pelo que me ficou de cada um deles.
A minha tia nunca teve medo do poder - na minha família herda-se mais do que um nome, uma legitimidade. E, por isso, nos lançamos todos em direcção às trevas do mundo, para de lá arrancar uma medida maior - essa medida do sonho e da ambição que deve ser a medida dos homens.
A minha avó fala-me da irmã - e, no seu rosto, vejo desenhar-se a saudade dessa companheira de toda uma vida, dessa aliada na conquista de uma outra escala, desse tempo de meninas que foi o delas, sob o olhar de uma família carinhosa e grande, num ninho quente e próspero.
Guardo embrulhada no orgulho, a saudade dessas pessoas que me ajudaram a conhecer o meu lugar nesta corrente que nos leva juntos até ao fim dos tempos.
Onde quer que esteja, acredito que encanta todos com essa inteligência fina, com essa encantadora capacidade de afirmar convicções, que herdou como as coordenadas que deviam ser as do mundo.
Escrevo sobre ela, sabendo, no entanto, que as palavras não seguram o encanto que morava no fundo daquele olhar, tão pouco chegam para descrever aquilo que se acumula dentro de nós depois de nos termos uns aos outros.
Todas as minhas vitórias e do A. a faziam feliz - sei que sorria por ela e pelos que nela ainda viviam. Celebrou connosco a vida e, com isso, tornou-a maior.
Recordo-a pela forma como nos olhava - e, na saudade que sinto de tudo o que vivemos, percebo que a vida nos guarda dentro uns dos outros para que, no fim, ninguém se perca.
Para que, no fim, tudo recomece e se reinvente e, no nome que um transporta, todos se sintam, afinal, vivos e chamados, sempre, a celebrar a vitória da vida sobre os reveses do mundo.
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