Rewind

domingo, 9 de outubro de 2011

verão.

As tardes começam a ficar mais pequenas - o Verão começa a morrer no horizonte. Algures, ao fundo, o fio luminoso do mar.
E, de súbito, lembro esses Verões longos como uma brisa que não cessa numa noite quente e vem amaciar os sentidos.
Os Verões da minha infância eram de um ruído e de uma agitação luminosa - estavamos rodeados de pessoas, cuja companhia podíamos apreciar genuinamente. Todos os gestos eram fáceis e tínhamos para com a vida uma espécie de desdém que nasce em todos os corações cheios.
Lembro Lagos - a cidade em cujas ruas passeava com os meus pais e os meus avós. E lembro-me da forma como o meu avô me olhava enquanto eu vivia estendido no conforto daquela presença. Lembro a minha mãe e a minha avó que partilham essa paixão desmedida pelo mar.
O Sol despedia-se, ao fundo, num galope acelerado mas o brilho não deixava de existir para mim.
O A. sempre comigo - ambos a vivermos isso que sabemos ter sido uma benção.
Os Verões lembram-me sempre a agitação que é a forma suprema de felicidade quando somos pequenos e o corpo ainda não cedeu.
Temos imensas fotografias - ao fundo, a mesma cidade onde ficaram presos os passos que o meu avô deu comigo.
Quando o Verão acabava invadia-me sempre a nostalgia de perder esse tempo todo inteiro para ter as pessoas de quem sempre senti a falta.
Os dias de Verão da minha infância foram plenos - como se o tempo passasse pela paisagem, mas não pudesse quebrar os corpos ou atingir esse desejo absoluto de estarmos reunidos sob a luz de uma tarde que se derretia por fim.
O Verão era a negação do tempo - sempre a mesma face constante de dias longos como são os desejos de alguém que gosta para lá da resistência dos corpos.
Ainda hoje volto àquela praia - quando o sol se põe creio que todos sentimos que nos falta alguém, que há ausências que a própria paisagem parece denunciar também.
Os dias de Verão ensinaram-me o gosto de demorar no gostar - de partilhar essa indiferença pela presença do mundo. Todo o amor é uma forma de egoísmo, porque toda a partilha é uma forma de intimidade.
Hoje, enquanto o sol se pôs, lembrei-me desse areal imenso com um brilho de pérolas em pó. E, enquanto disfrutava do silêncio, ouvi chegar a mesma nostalgia da infância.
Há um Verão que desaba no horizonte - todos nos tentamos compor depois das ausências, procuramos vincar no sentido dos dias que vêm depois, a memória funda do que conseguimos ser.
A minha infância e os Verões de corpos leves e dias compridos ensinaram-me o prazer de contemplar o momento sem pedir mais nada ao mundo.
E, enquanto o sol caía no fim deste Verão, voltou-me essa vontade da meninice de desafiar o peso das coisas, de atenuar o peso das perdas.
E, sob a luz que caía, voltei a lembrar a família que a cor intensa do sol emoldurava nesses dias de infância.
A saudade empresta à luz uma cor que não se vê. Mas, no nosso íntimo, essa luz chega para nos fazer acreditar que há coisas que podem voltar a ser iluminadas. E continuadas no dia seguinte.
Quando somos crianças vamos sempre a tempo, existe essa crença na continuidade das coisas porque ainda não sabemos que o tempo as pode fazer derrapar.
E, enquanto a tarde caía, apeteceu-me ser criança e continuar a viver o fim da tarde com o meu avô por perto e a minha família.
Sei exactamente que se o meu avô voltasse, a sua forma de nos amar a todos seria sempre a mesma.
E, às vezes, essa certeza basta. Porque a maior prova das coisas que existiram é o que fica delas quando já não as temos.
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