Rewind

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

avó,

A noite caía - no silêncio boiava uma tristeza que se infiltrava nos ossos com o frio que chegava.
Olho-te da porta da igreja - não me vês ainda e admiro a tua força, essa tua vontade de não deixares um bocado de ti perdido no mundo, mesmo no fim.
Há um apelo que me acorda no peito - os teus olhos azuis como uma longa manhã de primavera, esse teu corpo frágil que esconde uma força que verga a dor, que verga o vazio.
Finalmente os nossos olhos encontram-se e o teu rosto acende-se, de imediato.
Corro para ti - sei que nos habituamos a chamar um pelo outro pela certeza de que partilhamos um lugar só nosso.
Ficamos lado a lado - eu com vontade de te poupar daquela despedida que me doía por me lembrar que as coisas acabam.
Durante a tarde lembrei-me de ti e do avô quando nos viam brincar naquele verde imenso que tinha um calor que sabia a paz.
Ouço palavras lançadas sobre a noite que principia - e pergunto-me se algum dia posso ver-nos o fim: o fim daquilo que foi a minha vida até hoje - essa família com um chão de granito que o mundo não pode abalar.
Faltam-me as palavras e os pensamentos ficam imersos nesse impulso que tenho de te amparar - não me quero perder, não quero deixar de ser a pessoa que ajudaste a fazer mais funda e que vive mais feliz por te saber nalgum lado a desejar-me coisas sem a medida dos homens e da vida.
Fomos cúmplices nesse crime de fazer da vida uma viagem sem destino - ambos nos queremos, no fim, perto um do outro.
E rezo, em silêncio, com uma vontade que me morde para que fiques.
Há uma multidão que nos rodeia - a tua mão procura a minha e prende-se nela com força. Os maiores amores são clandestinos, vivem desses gestos que o mundo não vê.
Sei que me escolhes, que te abrigas nessa promessa de eternidade com que aprendi a dizer a palavra avó - sabes que quero que me procures para que da noite da vida, sempre nasça a luz.
Há um sopro ácido dentro do meu peito que me dói - o toque da tua pele e os teus olhos fixados em mim, apagam o mundo.
De súbito, nada mais existe - há esse momento em que a vida triunfa sobre a morte. Vingo-me dela com a força da minha mão na tua, numa noite infeliz.
Agradeço-te tudo o que torna a tua lembrança um manto de luz e acredito que, no meio da noite escura em que ambos perdemos, haverá alguma justiça em desejar que nos deixem ficar presos um no outro pelos laços que o sangue e a cumplicidade forjaram esses anos todos.
A noite chega, enfim, manchada das lágrimas que choras dentro do peito e mais ninguém ouve.
Eu ouço-tas - e com esse estar contigo num momento em que verde não se parece com paz, digo-te que, apenas nos perderemos um do outro, quando um dia de mim se perder a minha vontade.
Quando, um dia, eu me perder de mim.
Enviar um comentário