Rewind

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Gó.

A Gó era ainda uma criança quando a vida lhe pôs o trabalho na esquina de uma infância que nunca chegara a começar.
Quando jovem era uma mulher alta, os cabelos negros muito densos e compridos - e um puxo laboriosamente posto na parte de trás da cabeça.
Os seus dedos são longos e o seu rosto embainhado de uma luz serena quando me diz o nome ou nos ouve - a mim e ao A., a alimentar a veia jovem da minha avó com provocações que nascem desse carinho genuíno da intimidade.
Chega sempre com o seu passo largo e firme ao cimo das escadas e vem receber-nos com um sorriso onde se revela a dimensão do que nos pôs pedra dentro do coração dela.
A Gó é uma espécie de feiticeira do carinho, da dedicação - a cozinha e a casa dos meus avós era o lugar de onde se habituou a ver o mundo e onde todas as suas feridas fecharam.
A cozinha era um mar de cheiros, todo um desenrolar dos sentidos como numa mística de que só ela soubesse o segredo.
Ela foi a maior amiga dos meus avós - e uma das pessoas mais importantes da minha vida. Sempre me senti íntimo de Deus na presença dela e da sua fé que, a mim, me fez sempre sentir protegido de tudo.
Fui muito à missa com ela em pequeno - segurava-nos nas mãos tenras e, de novo, podia ela ser criança, encantada com as travessuras dos dois seres que ela mais amou na vida.
Os seus olhos são verdes - desse verde dos campos na aragem fresca da Primavera. A minha vida está toda guardada no fundo deles - as pessoas que mais nos amam são os únicos guardiães da verdade da nossa vida e só elas nos podem escrever a biografia.
A Gó falaria de nós com frases curtas e esse sorriso que lhas corta, enquanto no rosto se nota essa avalanche que ela não consegue nomear mas que sabe ser amor.
As lágrimas nascem como contas muito finas na dobra dos seus olhos - só ela sabe a receita que cozinhou a minha família. Viu tudo o que veio antes daquela casa ser o palco onde o meu papel e do A. se tornaram para ela os principais. Dela ouvi as descrições mais bonitas da minha avó e do meu avô, da minha mãe e do A.
Pintou-os com o traço claro dos sentimentos nus, escondidos na dobra da pele e com essa verdade feita da matéria composta do amor.
Quando olha para a minha avó ela admira a mulher e rende-se ao tamanho da vida que ela fez nascer dentro daquela casa. Mas a Gó foi sempre a cúmplice desse crime quase perfeito de fintar a morte com a firmeza do sonho e da ambição.
Eram momentos verdadeiramente bons os desses lanches no quarto da costura, enquanto ela punha o carinho em doses abundantes numa conversa que a fazia rir.
A Gó chorou todas as desgraças da casa - ainda me lembro do que se apagou no seu rosto no dia em que o meu avô nos deixou.
Fala muito dele e, às vezes, cobre o nome dele de silêncio - como eu, ela sabe que nada pode igualar a dimensão de um homem que viveu numa vida mais futuro do que eu.
A casa e os seus armários enormes repletos de rendas, linhos, lençóis, monogramas bordados nas toalhas com o nome que usamos todos dentro do peito são terreno de ordem e lei - são a jurisdição da nossa Gó que nos põe no cheiro da roupa e no amaciar da rotina um pouco da poesia da vida.
Aprendi a rezar com ela a um Deus bom - ela, de certa maneira, é um modelo daquilo que deve amparar os homens nas vertigens do caminho: um desejo de bondade bordado no peito; um desejo sincero que a casa se faça grande e as suas gentes cresçam por entre as trevas do mundo.
O maior amor é como um raio de luz que a Gó aprendeu a esperar das duas crianças com que ela sempre se sentiu igual.
Não lhe vou conseguir agradecer nunca. Visito-a e a saudade nasce maior no momento em que saio com uma espécie de consolo - estive com o R. que ela faz nascer, de novo, em mim.
Uma criança alegre que ela envolveu com dias de uma paz toda como um doce balanço sobre um chão firme que não se movia.
Procurarei sempre por ela - ela celebrou a minha vida como os meus e nasceu no seu coração uma alegria que tornou o seu amor por nós talvez a forma mais insuspeita de amor que já tivemos.
Não há Gós neste mundo - ainda hoje duvido que milagre foi aquele que a pôs tão junto a nós com aquele carácter que não consigo igualar.
A grandeza das pessoas vê-se na forma serena com que abdicam por nós - o corpo cansado daquela mulher absolutamente incrível nunca quebrou em nome do amor que nos tinha.
A minha família deve-lhe tudo - forjamos com ela uma aliança que subsiste para lá das vagas do tempo e o nosso nome confunde-se com o dela.
"- Gostamos muito de ti, Gó."
"Ai meninos, e eu?" - e tu, minha malandreca, gostas tanto que os teus ossos te doem porque o corpo sabe que esse impulso subsiste mesmo que um dia ele falhe e o mundo também.
Obrigado.
A gratidão empresta ao amor essa tonalidade humilde e serena da certeza de que, mesmo que isto não faça sentido nenhum, há pessoas que provam que o sentido pode ser uma linha recta e absoluta desenhada a direito sobre o coração.

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