Rewind

domingo, 11 de setembro de 2011

noite.

No meio do jardim havia um banco virado para a cidade. Nas noites de Verão, o meu avô esperava o cansaço do corpo envolto no silêncio. Eram noites amplas na minha vida de criança - não sabia, ainda, que há noites das quais nascem dias mais vazios.
Sentava-me e o meu avô queria saber de mim - a sua voz era serena como são as vozes das pessoas a quem a vida pouco pode roubar ou deixar por fazer.
Ouvia sempre essas histórias - o meu pai pequeno e os meus tios - e o meu avô com essa força de os querer grandes, protegidos do mundo e das agruras da vida.
Falava-me da minha avó - o seu olhar iluminava-se e via-se que a admiração profunda era o chão daquele amor.
Contava-me como a mãe lhes falava junto à lareira da casa a que todos voltamos hoje - essa mulher que ensinou ao meu avô a ternura que nasce do exemplo. A lareira era o lugar dos afectos - e bem o sabe o meu tio Arnaldo que canta a mãe e os irmãos nos poemas que são linhas de saudade.
O meu avô deu-me a mim e ao A. isso que viu acontecer com ele - há pessoas que se tornam nossas cúmplices nessas horas escondidas do mundo, que se tornam cúmplices nesse crime maior de desejar um amor sem tempo, sem lugar.
O meu avô era o meu herói - há essa admiração que me nasce do desafio que ele vincou no caminho dos dias - não havia cansaço, não havia fim para essa vontade de erguer uma fortaleza que nos desse do mundo uma perspectiva segura e doce.
O meu avô adorava a minha mãe - falavam muito os dois e ele via nela características que lhe agradeceu por as ter posto nos seus dois netos preferidos.
A cidade adormecia - à volta dos meus ombros, o braço firme do meu avô e esse sentimento de triunfo sobre o mundo que me acompanhou os dias de criança.
Todo o amor completo nos faz um pouco egoístas - pode-se esquecer, por momentos, o mundo; esquecer para lembrar melhor. Para lembrar essa dádiva de termos alguém que nos cose no carácter a devoção, ecos de coisas que são maiores do que os códigos do mundo; maiores do que o medo.
O meu avô nunca teve medo - amou-nos com uma escala que vence o vazio; que nos fala do lado de lá da solidão, para que ainda o possamos ouvir.
Hoje a minha avó senta-se comigo - falo-lhe eu do marido que foi o meu avô. Agradece-me, em silêncio, que lho lembre; que me lembre dela comigo ao colo. Que lhe fale do espaço que eles os dois têm na minha vida.
Ela sorri - adivinha que eu e o A. jamais os esqueceremos.
"- Sei que tu e o A. vão ser grandes." - diz-nos ela, sem nunca suspeitar que, naquele lugar, o meu avô nos disse o mesmo. Eles acreditam que connosco a família, a mística, o passado, a memória não morrerão.
Com um abraço que lhe dou, com a noite a cair sobre o mundo, quero responder-lhe que, graças a eles, a esta família que fizemos, pude ser maior.
A maior grandeza foi a que descobri amarrada no amor que lhes tenho.
E essa, como eles sabem, nada pode igualar.

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