Rewind

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Tio,

Habituei-me a identificar esta família pelo azul dos olhos. Cedo percebi que, na mesma casa onde nasceu a minha avó, nasceram outros tantos que me ensinaram quem eu sou.
O azul dos olhos escondia esse apelo do sangue que vos fez maiores - deixam na vida uma lembrança que destrona o medo; há um rasto vosso que nos diz por onde ir.
O Tio será sempre o mais novo de uma casa grande onde os afectos eram carícias sobre as feridas que o mundo nos deixa para curar pelo caminho.
Lembrá-lo-ei sempre por me ter agradecido o amor que guardei à minha avó desde o primeiro dia. Por ter reconhecido nessas duas crianças que cresceram sempre a mesma devoção.
Aprendi a reconhecer o amor que tinha pela minha avó - doente conduzia para a ver - e logo aprendi que há caminhos que percorremos para podermos viver.
Uma raça, uma família, um nome constroem-se desses testemunhos que não nos deixam esquecer quem nos pertence e quem serve para testemunhar que há, de facto, valores maiores do que o tempo.
A hora do adeus não chega entre nós - em silêncio, no meio da multidão, há uma casa que visito e reinvento no meio da solidão que dói hoje. É a casa que vos abriu a janela do mundo, mas manteve o chão assente nesse pilar que é o amor.
Ao meu Tio que já não me ouvia eu digo - obrigado.
O nosso nome faz-se maior do que a vida sempre que não ignoramos o milagre de pertencermos a um caminho que foi feito para nos pertencer a todos.
O meu sangue chama por essa casa inteira - e secretamente deseja que o Tio tenha encontrado todos os que sempre esperaram por si.
Digo-lhe que os encontre e lhes diga que aqui, no meio do caos, alguém sabe que no fundo dos olhos azuis desta raça sempre existiu essa força maior de desafiar o fim com uma vontade de voltar onde somos precisos.
Fico por aqui, meu Tio.
Um dia, quem sabe, sob o azul dos mesmos olhares, nos juntaremos para continuar aquilo que sobra numa vida que nunca chega.
Obrigado.
Até sempre!
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