Rewind

terça-feira, 16 de setembro de 2014

o teu nome não me chega,

trago o teu nome a encher-me a boca antes de se rasgar o silêncio com a saudade que te tenho. digo o teu nome, uma, duas, três mil vezes como se todo o meu sangue fosse ser sempre uma viagem demasiado curta para o esquecimento.
 
o teu nome roubou-me o silêncio, menina.
 
os meus olhos fecham-se e o escuro é uma janela com o teu nome escrito na pele de todos os vidros - todas as letras como arrepios para dentro da espera, todos os beijos como cartas destinadas apenas aos teus lábios.
 
o teu nome tem sílabas que repito como se fosse ficando cada vez mais perto da chegada e o contágio da saudade me fosse doendo cada vez menos nos ossos; digo-te o nome para que a casa não se esqueça de ti, para que a cama seja ainda a nossa e desta janela nos pareça sempre impossível querer fugir. 
 
o teu nome pela manhã como um lençol que se estende no ferro da varanda; dizer o teu nome como que a dar uma razão às flores para se esquecerem de partir, aos pássaros para aprenderem no canto uma liberdade nova e mais inteira e aos muros da cidade para se cobrirem com as letras do sonho em que te encontrei.
 
o teu nome é uma dessas ruas que nos atrasam o passo, que nos mudam a vida, onde nos demoramos a inventar um nome para o que nunca existiu antes. o teu nome traz árvores alinhadas em direcção ao mar, traz sombras gentis debaixo das quais apetece contar segredos e inventar a urgência de um encontro. o teu nome fez-me chegar atrasado à solidão - digo-o, às vezes, só para me lembrar da primeira vez em que vi a noite da claraboia dos teus sonhos, em que o meu corpo foi beijado pelo fogo dos teus olhos e eu parei de sonhar sonhos antigos.
 
o teu nome, menina.
 
o teu nome pendurado no cabide como uma camisola velha para os dias de frio, como um cigarro que fumo só para passar de novo o sabor da tua pele nos lábios esquecidos. o teu nome só para recordar o acaso dos meus olhos acharem os teus, só para recordar a impossibilidade de os nossos corpos se conterem e de todos os abismos terem sido pontes dentro dos teus braços.
 
o teu nome em todas as cartas - debaixo dele, o teu corpo a faltar-me, os teus olhos sozinhos dentro da cama, os meus dedos a procurarem a porta onde termina o corredor da tua ausência. o teu nome e a minha língua habituada a demorar-te com a lentidão em que o desejo se engradece e se precipitam todas as renúncias.
   
o teu nome como a véspera do teu corpo - chamar-te de dentro do silêncio e levar-te, pela mão, pela boca, por cada recanto onde possa passar o meu desejo para vires, para respirares no meu pescoço o resto de primavera que guardei para ti no mistério da noite que nos cobre.
 
o teu nome ou aquilo com que a minha língua se ata na tua num abraço apertado. o teu nome ou as tuas pernas todas escritas de frases onde a sílaba soube a sonho. o teu nome ou todos gemidos contigo dentro.
 
o teu nome é meu. o teu nome é o meu. 
 
só faltas tu.
 
vem depressa. 


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