Rewind

terça-feira, 9 de setembro de 2014

os pássaros ficaram,

às vezes quando passas, observo o teu corpo esquecido dos meus olhos, o teu corpo esquecido das palavras que a minha boca lhe diz para o convencer de que há noites que se esquecem de acordar, de que há caminhos em que o vento levanta a poeira só para esconder os segredos que os corpos confessam algures por entre as sombras da tarde.
 
às vezes sorrio e sorrio quase sempre tempo demais - depois de ti, tudo se queimou mais devagar e as flores existem mesmo depois de cada uma das suas pétalas terem desertado no primeiro vento de um dia, de súbito, mais curto. depois de ti, houve primavera nos sulcos fundos da chuva nas curvas das estradas, houve pássaros cujo lar foi o teu nome e a luz cremosa que se solta dos teus olhos quando danças, enganou-os, mas eles não se importaram de ficar e morrer mais novos. depois de ti, também eles acreditaram que a partida era escusada, que pode haver luz no avesso do que vemos, quando tudo o que vemos é somente aquilo que sentimos.
 
às vezes escrevo cartas inteiras que tu nunca lerás, versos inteiros em que o teu corpo se desenha em metáforas que fazem da tua pele uma labareda imensa; metáforas que acrescentam mais sonhos ao fundo do teu olhar, metáforas que dizem que te amo todos os dias só porque admitir que não te amo todos os dias seria começar a perder-te e eu não quero. 
 
às vezes essas metáforas são pássaros que ficam, pássaros que se alinham e se agarram aos cabos eléctricos da rua do lado só para tu sentires como é bom ter quem nos chame. outras vezes, as metáforas são rochas onde estoura a saudade, gritos infinitos que precisam de um horizonte maior para se cansarem.
 
às vezes, meu amor, escrevo cartas onde há rochas, escrevo linhas inteiras em que já foste embora e eu também, em que nos fartamos da janela dos olhos um do outro - é quase como ter que mudar de casa e temos que ir.
 
mas os estupores dos pássaros persistem e cantam nos postes das ruas ao lado de todas as ruas para onde eu vou. e o teu nome aparece pendurado nos ramos de todas as árvores e todas as árvores são perenes e trazem nos ramos cada um dos beijos com que a tua boca me convenceu a ficar.
 
às vezes sei que sou teu, sei que nunca ninguém dançou tão bem comigo o escuro de tantas coisas da vida, mas demoro um pouco mais a rendição. só porque sim, só para que, quando eu suba o ventre amplo das escadas velhas, a porta se abra sempre. e não sejam precisas chaves e me possa esquecer delas num casaco qualquer que só tu sabes qual é.
 
às vezes as cartas ficam mesmo sem nome. tens coisas bem mais bonitas que um nome, trazes na pele um cheiro que não pousa e que só apanha quem voar contigo sobre as coisas dos homens e do mundo. ficam sem nome as cartas, mas o canto dos pássaros está lá.
 
estupores dos pássaros.
 
as cartas ficam sem nome, mas os pássaros do nosso amor sabem que um homem ama mais a mulher do que o nome que a contem. e aguardam.
 
às vezes, enquanto te olho, os nossos olhos cruzam-se na praça solitária do desejo e tu sorris-me.
 
sei que os pássaros não sabem guardar segredos, mas não importa.
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