Rewind

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A noite


Gostava sempre mais da noite. Dessas horas em que os corpos se aproximavam e se despia da pele o cheiro das ruas que iam dormir connosco. Era na noite que encontrava o espaço que sempre encontra quem esquece o tempo.

Imaginava que a voz do que pensava a podia ouvir inteira a noite. Caminhava na face adormecida e vazia do mundo e assistia ao espectáculo das vozes que se calaram. Quieta a noite boiava sobre as coisas e as ruas. Procurava o corpo desse alguém com quem dizer ao sono que não era o seu tempo ainda. Procurava a imensidão calma onde nada houvesse entre os corpos - nem a luz invasiva e a nudez explícita dos dias, nem as vidas dos outros e dos seus corpos. Procurava no véu misterioso da noite o espaço para se revelar o segredo que queria só para si e do qual não queria perder nada para o mundo.

Queria estar perto e tão perto que fosse a vida que vem nas veias tudo o que ouvia no ar que a sua pele recebia. E queria demorar os olhos e a pele no encaixe perfeito do tempo para amar.

Só na noite se esquece verdadeiramente o mundo. A noite faz-nos a todos egoístas ou solitários. Egoístas aos que não querem perder ou partilhar; solitários aos que nela encontram o verdadeiro tamanho do seu vazio e das suas ausências.

A luz da noite era especial. Admirava as luzes que chegavam a revelar as sombras quietas de coisas perdidas no escuro. Pensava nelas como corpos verdadeiramente livres e nus num mar de silvos serenos.

Era na noite que a demência saía à rua. Só aos loucos se deixavam os jardins e as praças das cidades - como se a noite fosse a vida que acontece sem nós. Talvez só os loucos vissem a luz da noite porque talvez só a veja quem perdeu o medo. O medo que sempre nos contém nos limites e traça linhas certas dentro de nós.

Nunca tivera medo. Da noite lembrava sempre que as distâncias diminuem quando ela chega. Que estamos mais perto de nós e dos outros que iluminamos com o calor aceso dos corpos bem perto.
Temia sempre a manhã. Quando com o dia a verdade era mais do que apenas dois corpos. Quando o que se ouvia era mais do que o silêncio ofegante do desejo. O dia não era o espaço de cumplicidade. O dia apagava a atenção ao pormenor com o seu mar de luz. Na noite prendiam-se corpos e olhares na pele.
E ele guardava na sua a memória da noite como um segredo.

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