Rewind

terça-feira, 16 de abril de 2013

Mãe|

Na campânula de vidro dos teus braços
As árvores flutuam sempre calmas no colo da tarde
E o mundo é suave como um fogo ardendo sempre
Na campânula de vidro dos teus braços
Os corpos são eternos e o presente é tão elástico
Como o amor que trazemos colado nas dobras dos ossos
E tudo se renova com o raiar da manhã na madeira do chão das salas grandes
Na campânula de vidro dos teus braços
As janelas abertas são corpos com sede de infinito
E o mar conta segredos de tempos inauditos
Na campânula de vidro dos teus braços
Os avós não morrem e fala-se deles como se fossem desabitar os retratos
Para continuar a valsa interrompida que é o amor
Na campânula de vidro dos teus braços
Sei sempre encontrar-te 
Imersa nas infinitas páginas dos livros que namoras
Na campânula de vidro dos teus braços
Vai-se ficando, vai-se prolongando os afectos para lá da validade das horas
Como num vício cego e feliz
Na campânula de vidro dos teus braços 
Sempre temos quem nos espere nas cadeiras do jardim
Para que escoltados pelas árvores altas e sérias
Se retome a palavra e se inscreva na pele
Um bem definitivo
Na campânula de vidro dos teus braços
Os cães correm sempre com uma felicidade pateta e barulhenta
E a vida lança-se inteira nos afectos demorados e obesos
Na campânula de vidro dos teus braços
O excesso é o antítodo contra a escassez de vida
Para guardar todas as Primaveras, para andar a pé em todas as praias
Enquanto a noite cai e o rumor do mundo serena

Hoje, a campânula de vidro dos teus braços é um tecto aberto no caminho
E sei que as coisas morrem e os corpos se partem com saudade das flores que já não chegam
Hoje, os avós morrem e o amor pode ser uma dança sem corpos em que saudade é uma melodia que não finda
Sei, Mãe, que o tempo corre e o aço da esperança, às vezes, se enferruja.
Mas, Mãe, chama-me sempre.
E se, às vezes, me encontrares de costas no caminho
Continua chamando como no jardim, quando demoro
E a tua voz será sempre a verdade mais perfeita com que a minha pele
Se cura e se ilumina.

RM 
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