Rewind

sábado, 6 de abril de 2013

porque escrevo.

Escrevo para que as esquinas tragam sempre fumo no ar baço do Outono e as Primaveras se sucedam num céu que escorrega na luz. Escrevo para que os barcos saibam a sal e esse sal sejam as lágrimas de quem parte para chegar.
Escrevo para que os dias tristes sejam o pretexto de um abraço apertado, de casas com cheiro de gente como a anunciar que alguém está para chegar. Escrevo para que tu, mãe, vistas o cheiro teu que vive nas dobras das ausências maiores do que eu quando não estás, não ris e ficas comigo. Escrevo, avô, para que vivas sempre nas pedras de musgo do muro da igreja onde rezo para que estejas bem. Escrevo para que todos os dias sejam bonitos, porque nos dias bonitos ninguém pode morrer.
Escrevo para fintar a morte com as vírgulas e a respiração do coração, para entreter o medo com essa ladaínha humana dos amores que querem arder sempre.
Escrevo para que os cafés tenham espelhos e possa sempre ver teus olhos quando me olham. Escrevo para que as despedidas sejam sempre um adiamento, uma ousadia da existência sobre o abismo e a escarpa escura da saudade.
Escrevo para que os teus braços, A., sejam sempre a morada perdida da infância, o eco desse rio de tempo que nos fez margens do mesmo corpo, dois lados para o mesmo caminho.
Escrevo, Gó, para que no fundo dos teus olhos viva sempre essa bondade de açúcar e o teu sorriso chegue por entre o rumor dos passeios e da multidão.
Escrevo para que tu, pai, te salves sempre dessa guerra que não quiseste e repetidas vezes voltes para a mãe que te quis por perto e para nós que te esperávamos do lado de lá do tempo.
Escrevo para inaugurar o espaço vazio da solidão com esses bordados que nos atam na pele uns dos outros. Escrevo para que as mesas vestidas de linho e cristal não se levantem nunca - que do vento cheguem sempre as palavras mais belas, as gargalhadas mais sinceras e tudo perdure como um lustre suspenso na noite escura da vida.
Escrevo para que os retratos nos tragam sempre juntos, para que durmamos juntos nos braços das molduras de prata da salinha de visitas e os pianos toquem músicas suaves como um fim de tarde de Verão.
Escrevo para que tu, mãe, voltes a ter a tua mãe nessa infância maravilhosa e quente como um gato preguiçoso num muro qualquer.
Escrevo para que esta obrigação de viver, este exílio forçado na vida que trazemos por detonar no sangue seja a perdição de quem nos criou, para que, mesmo sem nada sabermos do amor sejamos levados por ele a voos que o desenho do mundo queria apenas para a aves. Para que do egoísmo do mundo nada reste e a ordem das coisas seja tão arbitrária como o sonho.
Escrevo nem que seja para que do silêncio me chegue o eco do que digo e já não fiquemos sozinhos.
Escrevo para antecipar as flores do amanhã e fazê-las nascer no chão incompleto do hoje. Escrevo para morrer, amar de véspera, ter no peito como epitáfio a saudade do futuro que quero ver.
Escrevo para dizer que o homem morre sempre de véspera - que ao amor, que a um amor como o que podemos sentir por aqui, o amanhã é sempre a justa medida da beleza.
Escrevo para que os castanheiros da minha infância sejam perenes como as memórias que guardo deles nas tardes longas, quase sem fim, como se tudo se pudesse prolongar mais um pouco enquanto o tempo se distrai e adormece na palha quente.
Escrevo para que todos os jardins sejam floridos e te encontre sempre neles, minha avó, com teus olhos de um azul ardendo e teu sorriso de menina marota. Para que Deus me chegue pelo amor que me deram e acredite nele porque um amor desses me parece um pecado bom. 
Escrevo para vos chamar, pelo gosto de passar a língua na luz dos vossos nomes e ficar agarrado a eles como a um colo que dure sempre. Escrevo porque durmo no mesmo lençol de luz dos que vieram antes de mim e desejo ser possível que todos nos encontremos numa ceia, sob as estrelas num terraço grande de um lugar perdido.
Escrevo para que a chuva escorra sempre na pele sêca da terra e tudo baptize e redima, para que as lareiras se acendam e tu, avô, possas ter de novo a tua mãe que vos lia poesia no abraço quente do lume.
Escrevo para que o tempo não seja um corredor estreito demais para guardar uma história tão longa e bonita como a nossa. Escrevo para me lembrar do som das vossas vozes e agarrar-me a elas enquanto sigo no caminho.
Escrevo para que o calor das sílabas me reconforte e dias nasçam mais longos enquanto as palavras se casam, se unem num verso. Escrevo para inventar mais tempo, um tempo mais manso, molengão, obeso que não ande tão depressa.
Escrevo para ao morrer, ir vivendo mais. Para que entre as duas pontas do caminho, a poeira do ar seja de ouro e os corações mais felizes ao morrer.       
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